22.11.06

O QUE NÃO MORRE

Patrícia Evans



Depois que Ele subiu ao Pai,
em nome d'Ele arranquei escalpo,
apedrejei, incendiei, condenei.

Em nome d'Ele roubei, invadi,
eu destruí, ignorei, torturei,
depois que Ele subiu ao Pai.

Comi Seu corpo em hóstia.
Bebi Seu sangue em cálice.
Em minha mesa, Páscoa posta,
Judas, entretanto, não mostrou a face.

O pão, não dividi em partes;
guardei-o para meu deleite.
O vinho, o degustei metade,
a outra avinagrou com a tarde.

(Restou o misturar com azeite)

Chega-me o espectro da foice
e nada nunca me foi tão dorido,
ainda que de um cavalo, o coice,
a me por adormecido.

Como saber da absolvição?
Não foi ignorante que O usei,
a camuflar a maldade, que perpetuei
a cada falsa comunhão...

E agora, a extrema unção!
O badalar ao passar do féretro...
O Judas era cada minha traição
e o caixão é de fato meu, por mérito.

Em nome d'Ele, dizem,
é que meu corpo em febre arde,
que todas as pedradas me atingem,
que meus pecados me afligem
e que, como todo néscio covarde,
meus joelhos por minh'alma rogam.

Em nome d'Ele me comparei a Ele
e se O fui, por que a Ele abriu-se luz
e agora são trevas que a mim se voltam?

Há uma diferença entre nós;
esculpem em pedra um "aqui jaz" ,
enquanto por minhas vestes jogam,

entretanto,

quando Ele subiu ao Pai,
ninguém ouviu os sinos dobrarem,
como por mim agora dobram.

Eu voltei

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