27.6.07

Por Que Jamais Escreveria Um Texto de Auto-Ajuda

Ray Silveira

Como não tinha nada para fazer, passei esta manhã refletindo acerca de qual seria o tema sobre o qual jamais me atreveria a escrever. Não sei se pensei pouco por não ter tido paciência para pensar mais, o fato é que cheguei à conclusão de que seria capaz de escrever sobre qualquer coisa. Talvez ousasse cometer a leviandade de escrevinhar até a respeito daquilo de que nada entendo, como por exemplo, a influência do pum de uma formiga sobre o efeito estufa e o buraco na camada de ozônio, vejam só! Mas jamais escreveria uma linha sequer sobre auto-ajuda. Com efeito, durante a minha adolescência vivia buscando esta tal de auto-ajuda - que nem este nome mereceria ter, pois se está contida num livro, certamente é com a ajuda de alguém - e nunca descobri nenhuma vantagem na leitura de tais livros, exceto ajudar a passar o tempo e a treinar a própria leitura; e estas talvez fossem as únicas situações em que um livro de auto-ajuda, de fato, poderia ajudar se pelo menos o autor soubesse escrever corretamente. Permitam-me uma breve fuga de idéias. Tenho uma amiga, excelente escritora e poeta que me confessou candidamente ter aprendido a escrever simplesmente lendo revistas de quadrinhos, mais especificamente, gibis, patos donalds, tomix, fantasmas, caprichos et caterva e eu não acreditei a fim de perder mesmo a amiga, porque não gosto de conviver com gente gaiata. Ontem estive lendo um texto enviado por outra amiga querida, e como o autor está na crista da onda, inclusive com títulos de livros mais vendidos nas revistas semanais, resolvi ler do começo ao fim apesar de se tratar de um tema de auto-ajuda. No artigo, o autor recomenda que o leitor ao chegar na garagem para pegar o automóvel e constatar que o espaço entre o veículo vizinho e o seu, não permite a abertura da porta esquerda, nunca deve se aborrecer, nem mandar recado para o proprietário do carro ao lado, nem tentar forçar a abertura da porta a qualquer custo: simplesmente deve entrar pela outra. A partir deste exemplo prossegue, no restante do texto, a fazer analogias e recomendando os seus leitores a "entrarem sempre pela outra porta" em qualquer suposta situação difícil do dia a dia. Oras, isto é muito fácil de dizer quando se está escrevendo num computador de última geração, numa sala (ou consultório) com ar condicionado, se servindo de cafezinhos, e conferindo a cada instante, no romebanque, o saldo crescente da conta corrente, mas na prática a história é bem outra. Examinemos o exemplo padrão, isto é, usar a porta oposta à do volante. Todos sabem que a maioria dos veículos nacionais possui um freio de mão e uma alavanca de mudanças entre os dois assentos. Quando se é jovem, magro, saudável e nunca se sentiu a dor de machucar os ovos acidentalmente, tudo bem; nada obsta. Contudo, imaginemos que o motorista seja um senhor idoso, portador de uma imensa hérnia, gordo e já tenha sofrido um acidente que quase lhe deixou os tais ovos estrelados a frio ao tentar passar por cima do portão do jardim de sua casa por ter esquecido as chaves; como é que fica hem? Este é apenas um contra-exemplo a fim de ilustrar. Mas imagine-se também um pai ansioso porque a esposa lhe telefonou, pois o filho de quatro anos está passando mal e tem de ser levado, com urgência, para um hospital; ou uma senhora operada de períneo, já com alta hospitalar e permissão para dirigir, contanto que tome algumas precauções. Será que a sugestão do autor do texto de auto-ajuda faria algum sentido a fim de ajudar o leitor quanto às demais dificuldades do dia a dia, utilizando o caso da porta do automóvel? Como sempre a coitada da mulher é a maior vítima, querem ver? E se acaso o automóvel pertencesse a uma senhora casada que acabou de manter relações sexuais extraconjugais, esqueceu, ou por qualquer outro motivo, não pôs a calcinha e uma gotícula de sêmen extravasou e pingou sobre o assento; o marido já desconfia dela e manda providenciar um exame de DNA daquela manchinha. Como é que fica também a situação desta senhora, hem, doutor? Se fosse arrolar todos os motivos que me desencorajam a escrever um livro, um folheto, uma página, uma linha de auto-ajuda, sobraria material suficiente para editar um tratado de não ajuda a fim de desencorajar autores de livros de auto-ajuda. Mas, ao mesmo tempo, desconfio que aí já seria um manual de auto-ajuda para quem pretende escrever um livro de auto-ajuda; ou não? Que confusão dos diabos! Não sei por que me meti a escrever a respeito de auto-ajuda se jurei a mim mesmo que jamais o faria...

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