8.5.07

A HARD THING TO DO
(Patrícia Evans)

Ask me and do it quickly
because I've decided to leave soon
I am in a hurry,
don't have much time
but I'd love you to know.
Ask me whatever you want
what is my favorite color
what happiness means to me
or if I have a pet.
What time I wake up
what are my hobbies
who I love
who I don't
if I like to drive
to travel
where have I been all these years
and why do I think
the world is infinite in itself.
What movie I like most
what book
what have I done
and chosen
gained
and lost.
If I like ice cream
if I think I am pretty
or if you are.
Ask about my hopes
my plans
and if you are a part of them
what goes in my heart
or mind.
Ask me
everything you have always wanted to
but have never had the courage
I know it is hard
because we know
I will tell you nothing
but the truth
and I know you know
I am in a hurry,
and I don't have much time
this time
to change my truth
but do it anyway.

.
.

A PAIXÃO QUE NOS MOVE


A PAIXÃO QUE NOS MOVE.
(Patrícia Evans)

_ Boa tarde.
_ ...
_ Tenho observado você parada...faz tempo...é...posso tirar as teias?
_ Hum, hum...
_ Agora está melhor. Espera algum trem?
_ O que vem de Londres.
_ Cof! Cof! Que poeira! Se incomodaria se eu a umidecesse? Sou alérgico a poeira. Cof! Que poeira!
_ A água está gelada?
_ Não... temperatura ambiente.
_ Então pode.
_ Pode levantar o braço, por favor? Por debaixo dos braços tem sempre muito acúmulo de pó. Ah, obrigado. Eu espero o trem pra Rio de Janeiro. Quero conhecer a cidade grande...todos os arranha-céus e as ruas engarrafadas, os semáforos, já viu algum? Ah, e o Municipal, que beleza, heim? Tanto ouço das belezas naturais, suas praias, suas serras...Vou passar um sabãozinho em seu pescoço, está bem assim? Como será que se vestem as pessoas por lá? O que será que comem? Dizem que os cariocas são muito amigáveis. haha. Fico imaginando o samba, o chopp na orla, o futebol depois do trabalho... Esse lugar ficou pequeno pra mim, sabe? Como se a minha paixão fosse grande demais que só coubesse numa cidade que fosse passional como eu. Você acha que a minha borboleta está de acordo? A gravata borboleta não tem mais uma função prática, já pensou nisso? Oh, aí vem a polícia. Você tem documentos?
_ No bolso esquerdo.
_ Se ele pedir eu dou. A vida inteira eu esperei que alguma coisa grandiosa acontecesse por aqui. Não dá. Nada há de acontecer, por isso, estou indo. Quero poder, a fama, a glória, quero me apaixonar. Sou artista, já lhe disse? Autor teatral. Conhece esse creme dental? mandei vir de fora, claro... Mostre-me os dentes para que possa escová-los. Tenho uma peça teatral aqui comigo, quer folhear? Vou desgrudar as suas mãos. Força! Hum. Quero fortuna também. Mas virá com o tempo. Níquel por níquel. Onde encontrar tudo isso aqui? Então você me pergunta: "E onde encontrar isso tudo no Rio de Janeiro?
" Ah! Cuspa a água fora agora. Olha, talvez nem encontre, mas é a certeza de haver nada disso aqui contra a expectativa de haver por lá. Oh, lá vem o meu trem! Eu escreverei, não tenha duvidas!
_ ...
_ A propósito! Nenhum trem virá de Londreeeeeeessssss!

20.4.07







Queria
inserir minhas fotos em teus poemas,
minha dor em tuas penas,
e as pernas entrelaça-las todas
para lhe lembrar
de mim em tua cama
apenas

reflexo


19.4.07


13.4.07


MEU SILÊNCIO
(PATRÍCIA EVANS)
.


O frio de cio que no fim se acabara,
me silencia
e, quando silencio
é frio de fria invernada,
gélido frio, que vem com geada.

Meu silêncio, vigia!
ou hipotermia.
.
.

QUANDO?

(Denise Sollami)
.
na praça em que há um chafariz incrível
na esquina em que se ergue uma palmeira inóspita
ao lado do Edifício Argentina
perto daquela igreja gótica
em frente ao sinal onde a louca esbraveja intrépida
ali, no lugar em que eu estacionava o carro
tudo isso só pra te perguntar
(se é que ainda não deu pra perceber):
quando é que a gente se vê?
.
.

1.4.07

OUTRA


OUTRA
(Patrícia Evans)
.
Eu não sou esta que cai.
Eu sou a que está de pé e me vê caída.
Não sou esta que chora,
mas a que não entende por que eu choro.
A que, enlouquecidamente ama não sou eu,
sou a que tem pena, porque enlouquecidamente amo.
A que de fato sou, não é esta que tem pai e mãe,
estes meus pais não são meus.
Esta que escreve não sou eu,
sou a que não compreende a serventia que eu dou as palavras,
que eu não uso palavras, eu, ao contrário de mim,
não quero ser entendida,
não quero ouvir alguém,
tenho nada a dizer
e amo mesmo a mim mesma.

Eu sou a que fica em pé enquanto eu caio.
.
.

31.3.07

POEMA-BOMBA

POEMA-BOMBA
(Patricia Evans)

Um dia,
vou conseguir escrever
um poema-serra,
que lhe ampute os dedos,
que eles não servem
pra me escrever
cartas de amor.

.
.

ABSTINÊNCIA

ABSTINÊNCIA
(Patricia Evans)

Eu,
premeditadamente,
o acostumei ao meu amor
com doses diárias e intensas
de paixão, encantamento,
beleza e mágico caos,
para que um dia
pudesse matá-lo,
como morre um viciado;
em dor.

.
.

LUTO

LUTO
(Patricia Evans)

Cai a tarde,
não feito um viaduto,
mas feito esposa de condenado,
que veste luto pesado
debaixo de um calor puto,
(um calor que é outro carrasco)
"avec" nenhuma "elegance".
A minha tarde cai,
feito caem as tardes sem romance.

.
.

LÁGRIMA

LÁGRIMA
(Patricia Evans)

Toma!
Leva o cálice sagrado.
Sorve esta última gota,
que nunca mais um orgasmo
tirado com tua boca.
Leva este pedaço de mim,
que corta a faca que me encostas;
é o único souvenir,
que restará da esperança morta,
quando eu der as costas a rir
e tu ouvires o bater da porta
.

.
.

INCONDICIONAL

INCONDICIONAL
(Patrícia Evans)

.
Amo os gatos mais que os cães,
porque não dão trabalho
suas personalidades distantes
e amo os cães mais que os ratos,
porque me dá conforto
saber que zelam por mim.
Os ratos mais que os pássaros,
que eles não repetem canções,
como disco de vinil arranhado
e, claro! alimentam meus gatos
e os pássaros mais que os peixes,
que limpam as tantas migalhas
deixadas de tantos banquetes.
Amo os peixes mais que os insetos,
porque estão nunca por perto,
porque quando estão, estão mortos
e posso lhes chupar os olhos.
Os insetos mais que os vermes,
porque tão pouco se arrastam,
porque muito menos se alastram
em frente ao meu pesticida
e acima de todos amo os parasitas,
porque são a grande esperança,
para meu amor egoísta.

.
.

PROMESSA

.
PROMESSA
(Patrícia Evans)
.
Vou te amar,
não como Ulisses amou Penélope,
Romeu, Julieta.
Jamais um amor de Otelo
ou Orfeu,
porém, nada menos incisivo;
vou te amar como Narciso.
.
.

30.3.07

_Charles Bukowski_
(versão de Manuel A. Domingos)
.

Eu vejo-te beber numa fonte com minúsculas
mãos azuis, não, as tuas mãos não são minúsculas
são pequenas, e a fonte é em França
donde tu me escreveste aquela última carta
e que eu respondi e nunca mais soube nada de ti.
Tu costumavas escrever poemas sem sentido sobre
ANJOS E DEUS, todos em maiúsculas, e tu
conhecias artistas famosos e a grande parte deles
eram teus amantes, e eu escrevi-te de novo, tudo está bem
continua, entra nas suas vidas, eu não sou ciumento
pois nunca nos conhecemos.
Estivemos perto um do outro em
Nova Orleãns, pouco tempo, mas nunca nos conhecemos, nunca
nos tocamos, e tu continuaste com os famosos e escreveste
sobre os famosos, e, claro, aquilo que descobriste
é que os famosos estão é preocupados
com a sua fama – não com a jovem e bela rapariga que está
na cama com eles, que lhes dá aquilo, e depois acorda
de manhã para escrever em maiúsculas poemas sobreANJOS E DEUS.
Nós sabemos que Deus está morto, eles
disseram-nos, mas ao ouvir-te deixei de ter certeza. Talvez
fossem as maiúsculas.
Tu eras uma das melhores
poetas femininas e eu disse aos editores, “ela, publiquem-na,
ela é louca mas é mágica.
“Nenhuma mentira no seu fogo”.
Eu amo-te como um homem ama uma mulher que nunca tocou,
que só lhe escreve, e guarda dela poucas fotografias.
Eu teria te
amado mais se tivesse sentado num pequeno quarto
a enrolar um cigarro e a ouvir-te mijar no quarto-de-banho,
mas isso nunca aconteceu. As tuas cartas ficaram cada vez mais tristes.
Os teus amantes traíram-te. Rapariga, escrevi mais tarde, todos
os amantes traem. Mas isso não ajudou. Tu disseste
que tinhas um banco onde ias chorar e era junto a uma ponte e
essa ponte era sobre um rio e tu sentavas-te lá todas as noites
e choravas por todos os amantes que te tinham magoado
e esquecido. Eu escrevi-te de novo mas nunca
obtive resposta. Um amigo escreveu-me e contou-medo teu suicídio, 3 ou 4 meses depois de acontecer. Se eu te tivesse
conhecido provavelmente seria injusto contigo
e tu comigo. Foi melhor assim.
.

An Almost Made Up Poem - Charles Bukowski

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’ all right,
go ahead, enter their lives, I’ not jealous
because we’ never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ told
us, but listening to you I wasn’ sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, “ her, print her, she’ mad but she’
magic. there’ no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’ happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’ help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.
.
.

Charles Bukowski (1920-1994) poeta, contista e novelista. O seu aspecto literário obsceno imprimia uma sentimentalidade gélica e profunda. Nascido na Alemanha, filho de um soldado americano. Bukowski começou a escrever poesias aos 15 anos mas, o seu primeiro livro somente foi publicado 20 anos depois em 1955. Em 1962 estreou-se na prosa .Escreveu, entre outros livros, "Hollywood", "A mulher mais linda da cidade", "Mulheres", "A Sul de Nenhum Norte". É o paradigma do poeta decadente e aventureiro com especial queda para o álcool e para as mulheres que habitava um certo "underground" norte-americano nas décadas de 70 e 80. Não estando no nível "beatnik" e algo romântico de Jack Kerouak, onde as drogas e as experiências limites eram descritas como uma espécie de viagem necessária para a educação de uma nova geração liberal dos anos 60, Bukowski é basicamente um bêbado que gosta de sexo e usa a escrita para engatar gajas.

.

.

CONTRACEPTIVO

CONTRACEPTIVO
(Patrícia Evans)
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.
Deve saber fazê-lo com cada célula
e também com cada parte sublime, etérea.
Do contrário, se for só caralho,
melhor a minha mão, estéril.
.
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PERDÃO


PERDÃO
(Patrícia Evans)
.

Calada da noite.
Erro em lapso de razão.
Eis-me ferida.
Cravou-me no peito a estaca;
recompensa da palavra com sentido.
Era só o sentido da palavra!
Levou minha verborragia a ferro e faca
quando eu só articulava paixão...
Bem, perdão.
.
.

O PIOR CEGO

O PIOR CEGO
(Patrícia Evans)
.
Qualquer um, míope
ou astigmático, veria
através dos olhos dela
hiperbolicamente esperançados
agora em desespero estrábico,
que nada mais havia certo nela
senão a catarata em escolho
d'um amor de olhos limpos,
hipermétrope, natimorto
.
.
.

13.2.07

A Vida Numa Casca De Noz

A Vida Numa Casca De Noz

Ray Silveira

Nossos corpos são pedaços de estrelas: / Quantos dos nossos ossos / Teriam sido formados por Andrômeda? / Quanto do nosso cérebro teria Os mesmos átomos / Dos outros astros desta Galáxia? / Trago na alma, concentrados, / (Tais quais numa estrela de nêutrons), / Todos os núcleos da tristeza. / Trago no peito sobressaltado / As cargas elétricas de um quasar, / A emitir radiações pulsáteis; / Amargas, angustiadas, / Somente perceptíveis / Pelo telescópio invisível da solidão. / Explosões de super-novas se sucedem / A cada momento que passa, / No meu coração ardente / De terror e de paixão. / Para povoar o meu futuro virtual / Há somente uma anã branca implodida; / E nenhuma réstia de luz escapou/ Deste buraco negro que é a vida.

30.1.07

TENTA ME AMAR, NÃO!


TENTA ME AMAR, NÃO!
PATRÍCIA EVANS
.
Tenta me amar, não, oh! poeta,
que tuas mãos são pincéis
e embora me veja papéis,
do revés sou eu assecla.
Tuas mãos, tu as teria amputado
e amor, não o teria aos teus pés.
Tenta me ter não escrevinhado
em teu verso tão então mal fadado,
não, oh, poeta! não vale a miséria
de ter a mente inutilmente torturada...
que minh' alma guarda nenhum mistério
mas te endereça a mil e um cemitérios
onde jaz devidamente enterrada.

ESTAÇÕES

ESTAÇÕES
PATRÍCIA EVANS


.

Finalmente eu odeio.
" Vera é vez prima!
Rasga por fim este ventre,
a póstuma mentira.
Por entre, por dentre, pelo outono do seu seio,
finalmente diz _ "Eu odeio.".
Mágoa, este combustível que explode qualquer paixão,
que transforma amor em cão
rastejando no inverno da mais pobre aceitação.
Ora que cegos, verão, quem diria!
do extremo da afeição, amando,
ao inferno das mesquinharias,
prima Vera, odiando.
.
.

NEUROLINGÜÍSTICA
Adélia Prado
.
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
.

"O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."
(Adélia Prado)
Adélia Luzia Prado de Freitas é natural de Divinópolis/MG, nascida em 13/12/1935. Casada desde 1958 com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil S.A., tem 5 filhos: Eugênio, Rubem, Sarah, Jordano e Ana Beatriz.Adélia diz que: "Uma das mais remotas experiências poéticas que me ocorre é a de uma composição escolar no 3º ano primário, que eu terminava assim: "Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles...".A professora tinha lido este evangelho na hora do catecismo e fiquei atingida na minha alma pela sua beleza. Na primeira oportunidade aproveitei a sentença na composição que foi muito aplaudida, para minha felicidade suplementar. Repetia em casa composições, poesias, era escolhida para recitá-las nos auditórios, coisa que durou até me formar professora primária. Tinha bons ouvintes em casa. Aplaudiam a filha que tinha "muito jeito pra essas coisas". Na adolescência fiz muitos sonetos à Augusto dos Anjos, dando um tom missionário, moralista, com plena aceitação do furor católico que me rodeava. A palavra era poderosa, podia fazer com ela o que eu quisesse."Professora, começou a escrever em 1950, após a morte de sua mãe, Ana Clotilde Corrêa. Em 1973 forma-se em filosofia, um ano após a morte de seu pai, o ferroviário João do Prado Filho.Por essa época, entediada de seu próprio estilo, começa a escrever de forma torrencial, dando veios às influencias literárias recebidas das leituras de Drummond, Guimarães Rosa, Clarisse Lispector.Na opinião de Carlos Drummond de Andrade, "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".O que mais chama a atenção na literatura produzida por Adélia Prado é a religiosidade embutida e/ou subentendida em seus textos. Ela trata e retrata as coisas do cotidiano com perplexidade, entendimento e pureza.Sua obra é atemporal, moderna, transformando em lúdico a realidade descrita, fazendo com que os fatos mais corriqueiros ganhem uma beleza poética de grande extraordinariedade.Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura. Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá."Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português."Qual a contribuição de Adélia Prado para a literatura brasileira? Para a época em que sua poesia foi divulgada : a revalorização da identidade feminina, como ser pensante e ser maternal. Aqui, o grande valor desta poeta. Ou seja, Adélia conseguiu conciliar a intelectual com a mãe, esposa e dona-de-casa; ela conseguiu o equilíbrio entre o feminismo ( movimento agressivo) com o feminino (natureza intrínseca).Em seus poemas, estão muito bem colocadas as figuras masculinas ( pai, marido, filho), sem observamos sinais de conflito, fato este que não se observa nas poetas mais atuais..

PENSANDO POEMAS _ POR PATRÍCIA EVANS

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FONTE GREGA
Carlos Drummond de Andrade, "A Paixão Medida", José Olympio, 1980
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"A vida inteira mijando - lastima a deusa - e nem sobra tempo para viver. Minha linfa de ouro ao sol, inestancável, impede-me o sono, proíbe-me o amor. Não sei abrir as pernas senão para isto. Para isto fui concebida? Para derramar este jacto morno sobre a terra, e nunca me enxugar, e continuar a expeli-lo, branca e mijadoura, fonte, fonte, fonte?A deusa nem suspende veste nem arria calça. É seu destino mijar. Sem remissão, corpo indiferente e exposto, mija nos séculos"
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PENSANDO O POEMA DE DRUMMOND

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1- No que pensamos ao ler a palavra FONTE? O que é uma FONTE? Qual sua função?
2 - No que pensamos ao saber que a fonte é GREGA?
3 - Por que Drummond escolheu "FONTE GREGA" e não apenas FONTE?
4 - É possível que Drummond tenha feito referência à Tragédia Grega em seu poema?
5 - Caso Drummond tenha querido fazer menção à tragédia grega, de que forma ele o fez no poema acima?
6 - É muito claro que "mijar" signifique "jorrar"ao se tratar de uma fonte, mas o que será que a fonte de Drummond "MIJA"?
7 - Sei que a fonte grega é uma deusa. Musas são fontes de inspiração e são de "origem" grega. É possível que o poeta tenha querido dizer que a fonte "mija inspiração" ?
8 - Caso a fonte de Drummond "mije inspiração" em vez de água, o que água e inspiração têm em comum?
9 - Por que a deusa lastima?
10 - Por que a fonte questiona "para isso fui concebida"?
11 - Para Drummond nascemos para cumprir um destino imutável?
12 - É possível que ele tenha querido retratar o papel da mulher na sociedade na época das "fontes gregas" e fazer uma crítica ao fato de pouco ter mudado o papel da mulher atual?
13 - Por que a fonte "mija nos séculos"? Por que está condenada a ser inesgotável?
14 - Quer esta deusa vivenciar o amor e desamor e entretanto está condenada a apenas inspirar esta vivência?
15 - O que aconteceria se a deusa se rebelasse contra seu destino?
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CURIOSIDADES PERTINENTES
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"Em "FONTE GREGA", um Drummond anti-aristotélico faz da sua musa divina e fonte inesgotável de inspiração uma deusa da incontinência urinária; "sem remissão, corpo indiferente e exposto, mija nos séculos". A paródia de um gênero ou de um tema clássico significa quase sempre a superação do tema, o final do gênero. Drummond mantém o estilo que lhe é característico veiculando hesitação através de negações e perguntas, sem descobrir totalmente o "claro enigma": "Para isso fui concebida?", pergunta a musa incontinente não recebendo resposta."
Helmut Siepmann
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Sobre o poema Fonte Grega escreveu o poeta Adam David
"Mijando no séculos" Com prazer Ou com pesar, Sem se satisfazer Seu papel é procriar. A fonte é a vida. A água é pública "pra isso fui concebida!? Servir à república? (puta) Minha linfa é a seiva, Que inesgotável procria No jorro morno da veia Impede o sono a cria. Fonte, fonte, fonte! Mija o desamor..., Indiferente nem esconde, Que só presta favor...
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LINFA
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1Uso: formal. a água, esp. a límpida 2Rubrica: bioquímica. líquido orgânico originado do sangue, composto de proteínas e lipídios, que circula nos vasos linfáticos e transporta glóbulos brancos 3Derivação: por extensão de sentido. qualquer humor aquoso
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A Água é indispensável para a vida, pois é o conteúdo principal das células, além de funcionar como meio de transporte das enzimas e nutrientes pelo organismo. 90% do corpo de um recém nascido é formado por água. Ela participa da proteção do embrião antes do nascimento e continua em inúmeras funções por toda a vida na manutenção da temperatura do corpo, no funcionamento das glândulas, na produção da linfa do sangue e das secreções, na lubrificação das articulações, nos movimentos das vísceras, no emagrecimento, na prevenção do envelhecimento, na recuperação de doenças crônicas, na liberação de toxinas e no bom funcionamento de todos os órgãos.

"Possêidon, Deus do Mar, num ataque de fúria, secou todas as fontes de água da Grécia. Porém, encantado com a formosura de uma jovem sedenta que lhe pedia ajuda, ele mesmo, tocando seu tridente sobre uma rocha, fez nascer dali uma tripla fonte de água cristalina."
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TRAGÉDIA GREGA
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1 - A "Tragédia Grega" , por Nietzsche, por exemplo, é apresentada como a essência do pessimismo, onde se manifesta o gosto pela crueldade, o horror e a incerteza quanto ao destino. O pessimismo não significa para Nietzsche abandono, mas aparece ligado à força, à vida e ao poder.
- A decadência da tragédia grega é justificada pela influência nefasta de Sócrates-Platão que afastaram os homens da vida e os envolveram na teoria, lógica, ciência.
- Duas manifestações da doença do homem pós-Sócrates-Platão: racionalismo e individualismo.
2 - Comumente, entre nós, modernos, a palavra "tragédia" tornou-se uma aplicação costumeira para designar um acontecimento doloroso, catastrófico, acompanhado de muitas vítimas, ou ainda para descrever o desenlace de uma paixão qualquer que redundou num horrível assassinato. Para os gregos, entretanto, tragikós era outra coisa. A tragédia definia acima de tudo uma forma artística, ou algo que somente ocorria entre os grandes. Na visão de Aristóteles, um dos primeiros a estudar o impacto dos espetáculos teatrais, a tragédia seria "uma representação imitadora de uma ação séria, concreta, de certa grandeza, representada, e não narrada, por atores em linguagem elegante, empregando um estilo diferente para cada uma das partes, e que, por meio da compaixão e do horror provoca o desencadeamento liberador de tais afetos."
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A tragédia como catarse
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Aristóteles não preocupou-se em estabelecer qualquer teoria sobre a tragédia nem concentrou-se nos aspectos técnicos do espetáculo mas no comportamento do público. Concluiu que o espetáculo trágico para realizar-se como obra de arte deveria sempre provocar a Katarsis, a catarse, isto é a purgação das emoções dos espectadores. Assistindo as terríveis dilacerações do herói trágico, sensibilizando-se com o horror que a vida dele se tornara, sentindo uma profunda compaixão pelo infausto que o destino reservara ao herói, o público deveria passar por uma espécie de exorcismo coletivo. Atribui-se à concepção de Aristóteles, que associa a tragédia à purgação, ao fato dele ter sido médico, o que teria contribuído para que ele entendesse a encenação dramática como uma espécie de remédio da alma, ajudando as pessoas do auditório a expelirem suas próprias dores e sofrimentos ao assistirem o desenlace.
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MUSA
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De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, trata-se da "fonte de inspiração de um poeta", "génio de um poeta" ou "mulher inspiradora". E como tudo na nossa civilização ocidental, as musas têm a sua origem nos gregos. Não há poema homérico que, na sua introdução, as dispense. Na mitologia, elas são as nove filhas de Zeus e de Mnemose (a memória) e resultam de um ardor amoroso de nove noites consecutivas: Calíope (poesia heróica e oratória), Clio (história), Euterpe (música), Mélpomene (tragédia), Talia (comédia), Terpsícore (dança), Erato (poesia lírica), Polímnia (elegia) e Urânia (astronomia). Estas nove musas protegiam as Artes, as Ciências e as Letras. Curiosamente, a palavra museu designa o templo das musas. E é nele que residem as obras resultantes da sua inspiração.
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Agora que você já leu algumas curiosidades pertinentes ao poema de Drummond, volte às perguntas propostas em "PENSANDO O POEMA DE DRUMMOND" e perceba se suas respostas ou se a sua visão do poema mudou.
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7.1.07

NOITES OCEÂNICAS
Paulo Roberto Novaes


Desliza tua língua entre meus seios,
Oportuna pedra de gelo em dia de verão
(só que quente).
Toca os meus dedos e molha suas pontas,
Como que a lamber mamilos enrijecidos
De frio ou de prazer.
Afundou na minha boca,
Navio de porão cheio de ouro,
Sem chance de resgate,
Sem razão de retorno.
Não sabendo que sou toda tua,
Me ergue no ar,
Surfista nas ondas do teu mastro,
E na tentativa, praticar o impensável,
Pra me conquistar.
E me põe num pedestal,
Me cobre de pérolas e areia estelar.
E do meu andor,
Eu me incendeio o corpo,
Envolvida em rosas
(apenas pétalas),
vulcão furioso,
explodo.
E fogo alastrando floresta
E mar,
Secando lagos,
Derreto os Pólos
E crio um novo oceano
Pra você me amar.
Sementeira das paixões,
Colhi no teu jardim
Lírios cheios de mãos
E olhos pra você me olhar...
E me tocando toda,
Me encobrindo em névoa,
Me faz delirar.
Delirando, abro minhas velas
E deixo o teu vento soprar,
Me embrenhando em conchas,
Me vestindo em algas,
Pra você me achar.
Sem saber pra onde vou,
Deixando você me levar,
Vai se perdendo assim,
Vou te encontrando,
E novamente insana,
Chegou minha vez de te naufragar.
Brota longe, a nascente,
Vem me alargando,
Um rio,
Desemboca em mim,
O afluente,
Vou te possuindo,
Vai me conduzindo,
Este desejo e tanta água
Não cabem num só mar.
E volitando sobre tuas águas,
Vou te abençoando,
E você me bendizendo,
Nas tuas marés
Vou aspergindo óleo,
Vai me abrasando
Com teu sussurrar.
Clandestina no teu barco,
Sou pirata do teu coração.
Rosa dos teus ventos,
Flor dos teus lamentos,
Vento sudoeste da tua solidão.
Vou sentada em tua proa,
Deitada no convés,
Me banhando em maresia
E sol.
E na noite estrelada,
Bússola a aportar no norte,
Sou teu destino sem o cais,
Peixe que fugiu do anzol.
E me espraiando enfim,
Tomando do teu vinho,
Teu cálice em mim,
Na taça rubra da noite,
Vou procurar abrigo
Nas rédeas do amanhecer.
E quase desmaiada,
No suor da tua enchente,
Teu farol já apagado,
Afogada em teu sangue quente,
Minha vela ainda queima.
Incensário aguardando incenso,
Te amei no tempo do tempo noturno
de você me amar.

10.12.06

FÉRIAS

FÉRIAS
Patrícia Evans
.
Alguém viu você
quando dobrou a esquina
e sem saber pra onde ia
entrou no carro e seguiu?
.
Alguém viu?
.
Alguém viu você esperando
colocarem gasolina no tanque,
estancar com pano sujo o sangue,
que saía do porta malas?
.
Sangue de grife, de marca?
.
Alguém viu no reflexo torto
do espelho, o seu rosto
pálido _ enquanto os pneus ralos
esmagavam os pardais?
.
Quem mais?
.
Você guiando em última marcha,
sequer apreciando as paragens
e eu voluntariamente amassada
junto à baderna de suas bagagens.
.
Era sangue de grife,
era sangue de marca!
.
.
.
CAMINHO CIGANO (ACRÓSTICO)

Paulo Roberto Novaes

(Para Patrícia Evans)


Pneus derrapam em palavras
Angelicais e asfalto molhado:
Toda brasa é fogo que pode reanimar-se.
Ruínas de sombrios castelos habitam nossos corações-
Inquisição que te quero longe de mim.
Calaram-se rotação e translação terrestres;
Início e fim encontram-se no durante.
Acenda o seu farol de milha e atropele-se!

E você não sabe se não se afoga em seu gesto...
Veja a chuva alagando seus pensamentos.
A postura de uma fera distraída - vigie-a!
Na claridade e na sombra, seu olhar é a sentinela de
Sua Alma, sonhadora e cigana.
MENDIGO DA POESIA
Paulo Roberto Novaes


Estou sem ar,
Sem chão.
Sem pés
(para poder voar).
Sem teto
(para ser livre).
Surpreso,
Mas nada tão assim.
Estou música
Nas cordas da
Tua harpa.
Estou mudo,
Sentido,
Porém sem mágoas.
Sou menino que se perdeu
Para encontrar-se
Com a encruzilhada.
Sou vento ardendo
Nas choças.
Fogaréu molhando
As roças -
Martírios.
Sou homem sério,
Calejado,
Mas nunca bruto.
Pincelo nas linhas
Móveis –
Psicografia.
Luto.
Cabe a você o saber
Por que.
Visto-me de branco.
Fogo.
E paz.
Perdi a hora do trem.
Encontrei navio
No cais.
Sou pétala rubra,
Caída,
No chão do teu jardim.
Teu não.
Teu sim?
Talvez.
Sou gesso.
Esculpido marfim.
Madeira calada,
Que emudece nunca.
Coloridos borrões,
De guache,
Telas.
Quebrantos, mazelas.
Pranto.
Sou mar.
Da maresia amante.
Água parada,
Da chuva.
Melada.
Doce.
Praias desnudas,
De areia corpo.
Velas.
Flores.
Promessas.
Dezembro.
Fevereiros,
Amores.
Carnaval.
O vinho,
O sangue.
O lodo,
O mangue.
O pântano.
O sol,
O sal.
Sou tudo
O que desejo ser.
Sou magia.
Branca,
Vermelha,
Negra.
O bem e o mal.
Se bobear,
sou Maria,
Com orgulho
e prazer.
Sou giz.
Aniz.
Joelho na escadaria
E matriz.
Fantasma estampado
No breu.
Ateu.
Poeta,
Plebeu.
Teu.
E de mais ninguém.
Clown, mágico,
Trágico.
Esse não sou eu.
Porque não sou.
Alguém.
Amém.
Sou poeira das ruas,
Folhas secas nas praças.
Das V.M.’s da vida,
Prostitutas seminuas.
Sou caca das traças.
Vivo sob baratos calçados,
Sempre enfermo.
Por isso,
vou a todo lado.
O cascalho,
no asfalto quente,
Me fez assim.
Terreno.
Carente.
Sou rio,
De mim afluente.
Além,
Mas logo ali.
Te quero.
Abraços.
Amassos.
Cansaços.
Proezas.
Impetuosa
Musa,
Que abusa
Da gentileza.
Sou toda tua.
Te amo.
Poesia crua.
E ninguém mais.
(Nua).
Perdida,
À toa.
Nos mares do norte,
Da vida.
Na proa.
Agora,
Com tua licença,
Perdoa (a mim),
Que me vou,
Que se foi...
Bailar sobre a rosa
Dos ventos,
Fuçar,
mal cheiroso,
canis de sarnentos.
Que é lá que eu vivo,
Que é lá que eu como
E bebo.
E que busco abrigo,
Das pragas,
Do final dos tempos.
Porque sou eu quem
Esmola o pão,
E recebe na cara
O tapa, o desalento.
Esboçado em tua face,
Um gargalhar,
O frio das madrugadas
E o teu lamento.
(Mas nunca o teu olhar).

Poesia,
Aonde me foste levar?
TEUS CABELOS

Paulo Roberto Novaes

Teus cabelos estão por toda parte.
No vento, pela casa, ao relento...
No chão do banheiro, na toalha ainda úmida,
Nos lençóis, emaranhados.
Teus cabelos ficaram em mim
E confundiram-se com os meus.
Mas os teus são lisos e os meus são crespos.
Os teus voam do ar ao menor movimento,
E eu fico observando onde vão pousar.
Teus cabelos estão por toda parte.
Na cozinha, sobre o fogão, dentro de um copo
Que você usou...
Na sala, estão em todo o sofá,
Fizeram-se enfeites na árvore de natal.
Teus cabelos estão por toda parte quase.
Menos no quarto.
Por que será?
Teus cabelos estão todos aqui,
Parece.
Mas e você, sem teus cabelos,
Onde está?

25.11.06

EVANS

OBS: ESCRITO EM HOMENAGEM À ESCRITORA, ATRIZ, CANTORA E POETA PATRÍCIA EVANS (ARTISTA DE GRANDE EXPRESSÃO NA PRODUÇÃO CULTURAL CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA).

por LUCILUZ

Uma mulher,
à que Evans assina;
à que Patrícia perfuma;
linda, linda se edita!
Vou ler-te à glória e poesia,
herdeira lídima dum Zeus.
Ave, lis duma escrita,
dinamiza a sinonímia!
(e meus olhos serão teus)

Há nas peças arianas,
encenar-te ao apogeu.
Nesses palcos de esperança,
canta, dança o verso: “Deus”..
(e meus olhos serão teus)

Tu que vives
- novos tempos - ,
quando firmas pensamentos.
Se escreves sentimentos,
sobre-gira meus momentos,
deste meu passado ateu.
E eu,..
Curvo à tu em reverência,
já me inspiro nesta essência.
Sendo em prosa
o que emanas,
faze tua honra em mantra!..
Sendo a ode em partitura,
que o teatro te possuas
nestes textos que são teus...
(e meus olhos serão teus)
.
.
Na Casa da Patrícia (Para Patrícia Evans)
NATHAN DE CASTRO

Na casa da Patrícia tem poesia
e um ponto de mirante à beira-céu,
de onde avisto a ponta de um pincel
que tinge a onda azul de maresia.

Na casa da Patrícia tem pinel
e uma palavra doce que sorria
no rosto de uma onda de escarcéu
que vive a amizade e a alegria.

Na casa da Patrícia tem abraços,
o beijo do "Piano" e duas prosas
que varam madrugadas, sem espaços

para a tristeza, a dor ou descompassos.
Na casa da Patrícia, o amor e as rosas
residem nas paredes preguiçosas.

1969

LUIZ HENRIQUES NETO

O foguete era movido a água e pedal
Pisava-se num êmbolo e a miniatura do Saturno 5
Subia aos céus e nós éramos os astronautas
Eram foguetes e bombas atômicas e discos voadores
e cérebros eletrônicos e televisões
e raios lasers e interferona e a cura do câncer
E nosso foguete ia decolar do meio da rua
que tinha poucos carros e muita criança onde a gente morava
E brincávamos e fazíamos barulho quando um homem calvo e de peito grisalho
ou era a camisa que era branca e hoje se faz corpo em minha memória
Abriu a porta e nos chamou do quintal de sua casa
Que entrássemos e acompanhássemos com ele
O Saturno 5 ia subir
Ia decolar
Levar o homem à Lua
Levar o homem a outros mundos
Levar o homem ao futuro
E nós entramos e vimos em embaçadas imagens em preto e branco
deformadas pela curvatura das velhas telas
A voz emocionada do locutor - não me lembro quem
ser engolida pelas chamas e fumaça e fogo e labaredas
E a plataforma pegou fogo
E o homem tirou os pés da terra
E Marcos, um amigo nosso
que a gente tratava com um certo carinho,
com pena e com medo, porque nossas mães mandaram
e porque sabíamos que ele o pai dele tinha morrido
e ele mesmo era meio bobo, ou como falávamos longe dele, retardado,
Mais do que nós ficou impressionado
E assustado até
"O foguete vai incomodar papai
e vai machucar papai do céu
vai passar pelo céu rápido e grande
e papai do céu e papai, que tá lá junto dele
vão ser atropelados"
E ele saiu correndo e assustado e a Marcinha
que ainda não tinha chegado na idade de não gostar de coisa de menino
começou a chorar que iam machucar papai do céu
e o que ia ser do mundo sem ele
E mesmo eu fiquei preocupado
com o que os astronautas iriam encontrar e enfrentar quando subissem no céu
e além dele
E se eles não iam se perder
Mesmo sendo uma criança
Porque os foguetes que iam à Lua foram feitos para levar a bomba
E os filmes e as histórias em quadrinhos e os especiais de tevê
E os garotos mais velhos e as meninas mais velhas
Falavam da bomba atômica e de Nostradamus e do fim do mundo
E às vezes eu começava a imaginar que um dia eu não ia pensar
Falar Conversar Respirar
E nem lembrar do meu próprio nome e me sentia só muito só na minha cama
E tinha vergonha de dormir com os meus pais
E tinha a bomba e eu sabia
que eles não podiam fazer nada
E tinha a morte e eu sabia
que eles não podiam fazer nada
E ninguém e ninguém e ninguém e ninguém
Mil chegará e dois mil não passará.
E o homem pisou na Lua e passeou de jipe lá
E os foguetes a água sumiram
E também os foguetes a fogo
E os céus foram abandonados pelos homens
E uma vez eu li uma reportagem num suplemento infanto-juvenil
Dizendo que Nostradamus previa o fim do mundo em 1973
E este foi o pior ano
Quando às vezes na cama eu lembrava disso
Eu tinha medo do escuro
E estrondos na rua eram as bombas
E roncos de motores de aviões misteriosos na noite adentrada
Eram os bombardeiros
E o relógio atômico e o Oriente Médio e a guerra do Yom Kippur
E Nixon e Watergate e o Vietnã todo dia na mesa do jantar
E o fim da guerra e a guerra continuava eu sem entender nada como nunca entendi
Os Estados Unidos estavam em guerra mas eu nunca via os americanos em guerra
Estavam em filmes, programas, noticiários e livros e quadrinhos
e não pareciam que estavam em guerra
E eu tinha medo de guerra, de qualquer guerra, as pessoas morriam e
a pior de todas ia matar todas
E eu queria ser grande, queria crescer e ser grande e forte como o homem calvo
Como meu pai
Que sempre sabia o que fazer
Pagar as contas
Consertar a máquina de lavar
Consertar meu robô a pilha
Montar guindastes com Montebrás
Serrar e cortar e martelar e a parte elétrica da casa
E ligar todo os cabos de um aparelho hi-fi
Gravador estéreo, vitrola Phillips automática
e o projetor de slides que fazia cineminha pras crianças da rua
Com os slides da Disney e outros multicoloridos
E um dia, enquanto meu pai passava para nós a história
da Velha e do Boneco de Piche
Os ferimentos do macaco
A maldade do boneco
e o poço sem fundo em que ela caía e parecia não ter mais salvação
Me trouxeram idéias de escuridão
A velha indefesa escorregando para o seu fim
E gritando num túnel escuro
E quando a história acabou e naquele sábado era só eu e meu irmão
E meu irmão foi comer sorvete que a gente tinha comprado tijolinho
Eu estava assustado e meu pai, meu pai percebeu e perguntou o que aconteceu
E eu disse que um dia, um dia ele ia morrer
E meu pai não entendeu o meu medo, ele era um homem que consertava as coisas
E comprava novas somente quando não tinha mais nenhum conserto
E sabia pechinchar e comprar só o que precisava
Meu pai riu e disse que eu também
Eu um dia ia envelhecer e morrer
E naquela noite eu não dormi direito
E sonhei com dinossauros
E monstros alados que me devorariam à minha simples visão
E a qualquer momento eu poderia vê-los
E eu cresci e aprendi a ler como gente grande
A fazer contas como gente grande
A entender história como gente grande
E aprendi a jogar bola e a montar kits Revell
com a inestimável ajuda do meu pai
Que me ensinou a desenhar quase tão bem como ele
E aprendi a ficar sozinho em casa e não ter medo do escuro
De lâmpadas apagadas
Mais escuro, descobri e aprendi
São alguns corações, algumas almas
E mesmo em nós, vários pedaços do espírito
E era menos opressivo, mas mais constante
Este medo da escuridão final e definitiva
E assim aprendi a fantasiar e imaginar
Mundos onde nada disso acontecesse
Onde eu podia mandar e reinar
Quase como meu pai
E Marcinha se foi, um dia eu tinha dado um beijo nela
E meus amigos
E vieram novos amigos e novos - e melhores - beijos
E a escuridão me atraía
A escuridão da noite
Os beijos ganhavam em umidade
Meia-noite
E textura e tato belos seios
Uma da manhã
E cheiro
Duas da manhã
E umidade e textura e tato belos seios
E cheiro e tato eu estava dentro de uma mulher
Três da manhã
E esqueci a escuridão e esqueci o medo
E me derreti e perdi o controle e gozei
Quatro da manhã
E meu pai me perguntando por onde eu andava
Quase não me via mais em casa
E quase eu não o via mais
Os segredos da noite não eram tão mortais
E - surpresa - meu pai não os conhecia tanto
E amanheceu e eu dormi
E entardeceu e acordei e não encontrei mais a moça que eu beijara
Ela se fora, outras viriam, outras iriam, mas eu não sabia
E fantasiei forte e mais e escrevi poemas e contos e músicas
Pois ela me lembrou que tudo se vai
E ela foi durante um momento a minha vida
e eu vislumbrei como seria quando eu não mais fosse
E enchi a cara e fumei e traguei e cheirei
E contei tudo isso para outras moças e as beijei e amei
E toquei-as todas em suas partes mais negras
Que eu ansiava e desejava
Como parecia meu pai nunca ter desejado em minha mãe
E esqueci todas as bobagens e acordes que pus no papel
E cresci e cresci eu era grande e forte como nunca em minha vida
E conhecia meus braços e minhas pernas com perfeição
Meu rosto não mais com acne, minha voz firme
Meus dentes definitivos e meu cabelo e minha barba e meu pau grande e grosso
Atingi o topo do meu corpo e do alto via a todos
E meu pai eu via aos poucos se curvando ao peso de sua barriga
De suas pernas fortes que emagreciam e sua pele que se encovava
E ainda assim ele consertava a máquina de lavar e pagava as contas
E trazia as compras para casa
Mal eu pagava as contas com meus primeiros dinheiros
E foi quase como conquistar a mulher conquistar meu primeiro emprego
Eu menti e me escondi e ocultei e afirmei e me fizeram assinar
E me enganaram
Em pouco tempo tudo aprendi
E um dia era igual ao outro e ao outro e ao outro
Os dias se pareciam um com o outro e passavam numa sucessão tão rápida
Que eu só podia medir olhando a face de meu pai
E vendo a ceifadora trabalhar dia a dia
E quanto ainda teria eu que me enrugar para lá chegar
E essas contas todas comprar, estas máquinas consertar, esta casa reformar
Esta mulher satisfazer, estes filhos sustentar, educar e ensinar e ainda na hora mais negra Confortar
Mesmo que ele grande e crescido se sinta como uma criança
Pensando que um dia o seu pai irá passar
E depois será ele próprio e tanto por fazer, aprender e ensinar
Um dia eu vou crescer e morrer
Já chegou o dia de crescer
Menos mulheres eu beijei
Mais empregadores eu enganei
Mais dinheiros eu ganhei
E a festa do dia em que meu pai se aposentou
Foi igual à do dia em que tive meu primeiro emprego
E me acompanhava neste dia uma mulher de quem não gostava muito
Não nos dávamos bem na cama e nem ela era brilhante ou deslumbrante
Mas os segredos da noite só os superficiais ela me entregou
Os profundos me negou
E eu, ao contrário de meus amigos, ainda assim escrevi, compus, poemei e sonetei
Implorei à escuridão que me contasse suas mais negras histórias
Mas ela permaneceu indecifrável e me mostrava um dia igual ao outro
E por mais que eu fantasiasse eu sentia, mesmo que muito pouco, meus braços já não tão fortes
E meu pai mais fraco do que eu e já não entendia de computadores e vídeo-cassetes
Era eu quem instalava e cabeava
E a tevê a cabo e eu sabia instalar todos os fios e era exatamente da mesma maneira
que ele tinha me ensinado a ligar a aparelhagem de som quando eu era pequeno
Mas ele dizia que não entendia, que estava velho e nem música mais ouvia
E bebia com os amigos e conversava com o filho como se fosse um homem
E eu me sentia ainda distante, eu tinha medo do futuro e da escuridão
E meu pai se encurvava, envelhecia e sabia que se ia e ria
Ria com os amigos em meio a um chope
E eu tinha medo e abraçava e beijava a mulher que eu não amava
Assim eu tinha um corpo onde podia, nem que por um momento,
entregar minha vida e nào sendo ela minha eu não tinha que me preocupar
Com o dia em que eu a perdesse
Pois um dia eu ia envelhecer e morrer
Um dia eu ia envelhecer e morrer
E me sentia mais e mais envelhecido
Ao lado da moça que eu não amava
E ela se foi e outras também
Que de mim não levaram muito
E delas mesmas pouco deixaram e por causa delas
Minhas fantasias e meus mundos quase não se alteraram
Continuaram decaindo e cínicos
Sem super-heróis e grandes paixões
Mas um dia esbarrei em Elsa
E ela sorriu e me encantou como uma feiticeira
Uma bruxa que em seus pactos satânicos
Conseguiu a imortalidade e a perenidade
Uma órfã da eternidade
E eu lhe escrevi poemais
E lhe compus canções
E lhe li minhas obras prediletas
Mas nada disto a impressionou
Pois ela podia ler direto em mim
O que eu tinha que demonstrar
Vindo de minhas fantasias e meus mundos paralelos e perdidos
E ela rasgou meu peito e varou minhas costelas
Minha carne já não tão firme e muito tecido adiposo
Músculos já não tão possantes quanto há dez anos
E cortou e jogou fora e o meu sangue jorrou e caiu ao chão
Aos seus pés
Ela destruiu meu corpo, imolou-me e com sua mão bela e fina
Segurou em suas mãos meu coração
Ainda pulsante
Como se fora uma ninja de história em quadrinhos
E meu corpo agonizante ao chão
Aos seus pés
Ainda pulsante
E não tinha mais que me preocupar
Com o dia em que eu não mais fosse
Eu já não mais era
Era outra criatura
Meu coração pulsava nas mãos dela
Meu cadáver caído aos seus pés
E o coração dela pulsava em minhas mãos
Seu cadáver caído aos meus pés
Estávamos apaixonados
E saímos de casa e mudamos de cidade para um emprego melhor
E o olhar de meu pai assustado que seu filho se ia
Como eu quando pensava no dia em que ele se fosse
Mas não, era eu que ia e ele que estava com medo
Mas eu também estava com medo
As contas para pagar, as máquinas de lavar a consertar
Mas eu não tinha crianças a ensinar
Tinha primeiro uma mulher a amar
Amar muito
Até o dia em que eu envelhecesse e morresse
Até o dia em que eu envelhecesse e morresse
Voltei à cidade para visitar meu pai
Menos vezes do que eu queria
E amei e os meus dias pareciam mais longos e verdadeiros
E subi de vida e de emprego e melhorei
Quase com a mesma velocidade que os microcomputadores
E a tevê a cabo e os micro systems e os vídeo-cassetes
E os DVDs e a Internet
E meu pai dizia que estava velho para essas coisas
E eu o via cada vez mais velho
Até o dia em que o telefone tocou lá em casa às três e meia da manhã
Num dia de semana
E não era engano
Era interurbano
E eu chorei e chorei
Menos que minha mãe e menos que meu irmão
E fizemos as contas do inventário
E acertamos as coisas com o advogado
E eu não entendia nada disto, mas tive que ir adiante
E improvisava e seguia, mesmo sabendo estar cheio de erros
Que eu esperava consertar mais à frente
E pensava se era assim que meu pai se sentia
Quando eu lhe dava meu robô com metralhadoras que piscavam e faziam barulho
Para ele consertar
E eu voltei para casa e a minha mulher
Meu lar
E ela me beijou e eu precisava ser beijado
E ela me amou e eu precisava ser amado
E nove meses depois eu queria beijá-la
E a beijei
Ela precisava ser beijada
Pois era mãe
Estou mais velho e mais grisalho
Já faz tempo que perdi a conta dos fios de cabelos de branco no meu peito
E devo ter alguns no cabelo também
E estou mais gordo do que gostaria
Embora Elsa não ligue
Já que meu corpo ela destruiu há tanto tempo
E erramos e erramos e erramos quando ensinamos
E erramos e erramos e erramos quando criamos
E erramos e erramos e erramos quando amamos
Nosso filho
Mas ele cresce apesar de tudo isto
E tenho vontade de lhe escrever poesias e contos e músicas
Que ele não entenderá
Mas são de mundos cada vez menos irreais e fantásticos
São de carne e osso como ele
Quando corre e tropeça e cai e chora de dor
E já lhe ensinamos as primeiras letras
E os primeiros jogos
No computador que eu domino tão bem
Que instalei lá em casa ligando certo todos os cabos
E dizendo ao técnico que veio entregá-lo que ele estava fazendo tudo errado
E ainda outro dia, enquanto assistíamos ao Discovery Channel
Na tevê do quarto que eu fiz uma ligação pirata da Net para termos vários pontos em casa
Logo depois de um especial sobre a estação espacial internacional
E antes dele jogar o videogame em que não consegue me vencer
Vimos um documentário em que o guepardo morria chifrado por uma gazela
E os filhotes morriam de fome sem ninguém para cuidar deles
E eu vi que meu filho se entristecia
E se preocupava
E chovia
E, num momento em que tudo parecia mais escuro
A luz do quarto estava apagada, somente acesas a tevê e as lâmpadas
Do pisca-pisca natalino - a árvore estava na sala
Ele me perguntou, naquele instante mais preocupado com a pergunta
do que com o presente que iria ganhar
"Pai, um dia você vai morrer, não vai?"
E eu sorri longa e longa e longamente
E exultei
Com o medo e a preocupação dele
E sorri e disse que sim, eu iria envelhecer e morrer
E ele, um dia, iria crescer
E envelhecer e morrer
E ele aquela noite deve ter dormido mal
E sonhado mil pesadelos
Assustados
E eu, estranhamente,
Amei sua mãe como há muito não amava
Pois eu não tinha corpo e agora vencia
Vencia tudo que me assustou minha vida inteira:
A Morte.
Meu filho é como eu
Meu filho é exatamente como eu
E eu vou envelhecer e morrer
E meu filho vai crescer
E envelhecer e morrer
Exatamente como eu
Meu filho é como eu
Meu filho é exatamente como eu
Meu filho é como eu
Meu filho é exatamente como eu
Meu filho é como eu
Meu filho é exatamente como eu

24.11.06

A PERGUNTA

PABLO NERUDA

Amor , uma pergunta a tem destruído.
Voltei para você da espinhosa incerteza.
Eu a quero reta como a espada ou a estrada.
Mas você insiste em manter
um canto de sombra que eu não quero.

Amor, entenda-me, eu a amo inteira,
dos olhos aos dedos dos pés,
dentro, todo o brilho, que você manteve.

Sou eu, meu amor, que bate em sua porta.
Não é o fantasma, não é aquele
que uma vez parou em sua janela.
Derrubo a porta: entro sua vida:
venho viver em sua alma:
você não pode me enfrentar.

Deve abrir porta a porta,
você deve obedecer-me,
deve abrir os seus olhos
para que eu possa procurar neles,
deve ver como ando com passos pesados
ao longo de todas as estradas
que cegas por mim esperam.

Não tema, sou seu,
mas não o passageiro ou o mendigo,
eu sou seu mestre, aquele por quem esperava
e agora entro em sua vida,
para não mais partir,
amor, amor, amor,
mas permanecer.

QUEM É
PATRÍCIA EVANS


A ARTISTA

Patrícia Evans iniciou sua careira artística aos 13 anos de idade e apesar de sua formação ser basicamente musical, possui larga experiência como atriz. Trabalhou em mais de 39 montagens teatrais, em sua maioria comédias e musicais, 25 das quais como protagonista, 4 como antagonista. Dividiu o palco com nomes consagrados no cenário artístico brasileiro como Débora Duarte, Ana Rosa, Mauro Mendonça, Rosanne Goffman, Beth Mendes, Claudio Cavalcanti,Suely Franco, Ricardo Graça Mello, Benvindo Sequeira, Lúcio Mauro Filho, Fernanda Nobre, Luis Mangnelli, Tânia Loureiro e tantos outros. Embora sua carreira tenha sido norteada pelo teatro, Patrícia trabalhou em televisão, foi integrante do elenco fixo de "Chico Total" na TV Globo e apresentou o programa de variedades "Pulsação" na CNT. Nos "anos 90" emplacou sucessos nacionais com o grupo musical "Grafite".
Além de sua carreira musico-teatral, como escritora, Patrícia Evans é vencedora de 6 concursos internacionais de poesia, tem seu nome incluído no projeto "Brasil 500 anos" de Leila Mícollis, junto ao MINC, que reúne os 400 poetas mais representativos da língua portuguesa dos últimos 500 anos, convidada pela própria autora do projeto. Patrícia foi selecionada entre as dez poetisas mais lidas de 2003, junto a Adélia Prado e Hilda Hilst e teve seu trabalho recentemente exaltado em crítica de Robert E. Sheridan, editor do "New York Times" por 32 anos, onde dentre outras coisas, diz Sheridan reconhecer o trabalho de Patrícia como "um dos mais poderosos" que já leu.


GRADUAÇÃO
Patrícia é graduada pelas Escolas de Música Villa Lobos, Calouste Gulbenkian, Antônio Adolfo e Cenário; nestas duas últimas também trabalhou como professora de música e canto durante 3 anos. Possui vários cursos de extensão nesta área, tem noções de dança, sapateado, cursou arquitetura na Universidade Federal Fluminense e se formou em inglês no Instituto Brasil Estados Unidos - IBEU - com certificado da Universidade de Michigan.


ÚLTIMOS TRABALHOS
Seu último trabalho em teatro foi a peça "O JOGO" de Luiz Henriques Neto, autor que coleciona prêmios literários, com direção de Tina Ferreira, filha de Bibi, iluminação de Djalma Amaral, trilha sonora de Tereza Tinoco, ao lado de Malu Prado e Ricardo Graça Mello. Ao final da temporada no Teatro Vannucci, shopping da Gávea, em 2004 a peça seguiu para o SESC Tijuca e teve sua temporada encerrada em 9 de outubro de 2005.Sua última experiência com literaura foi lecionar na Universidade Gama Filho, campus Downtown, no centro UNAT. Patrícia deu aulas de literatura e figuras de linguagem até setembro de 2005.

VELHO TEMA

VICENTE DE CARVALHO


Só a leve esperança, em toda a vida,

disfarça a pena de viver, mais nada;

nem é mais a existência resumida,

que uma grande esperança malograda



O eterno sonho da alma desterrada,

sonho que a traz ansiosa e embevecida,

é uma hora feliz, sempre adiada,

e que não chega nunca em toda vida.



Essa felicidade que supomos,

árvore milagrosa que sonhamos

toda arreada de dourados pomos,



existe sim; mas nós não a alcançamos,

porque está sempre apenas onde a pomos

e nunca a pomos onde nós estamos.

A SOLIDÃO E SUA PORTA


CARLOS P. FILHO


Quando mais nada resistir que valha

a pena de viver e a dor de amar

e quando nada mais interessar

(nem o torpor do sono que se espalha)



Quando, pelo desuso da navalha

a barba livremente caminhar

e até Deus em silêncio se afastar

deixando-te sozinho na batalha



e arquitetar na sombra a despedida

do mundo que te foi contraditório,

lembra-te que afinal te resta a vida



com tudo que é solvente e provisório

e de que ainda tens uma saída:

entrar no acaso e amar o transitório.

IDEAL

(Patrícia Evans)

PATRÍCIA EVANS

Este silêncio é estranho,
como estranho o teu rosto pálido,
estranha a tua mão vagabunda
estar parada, morta,
e estranho ver teu sexo flácido.

Como é estranho este silêncio!
Nem um ranger de porta,
nem um cair de lenço...
a tua boca imunda
estar assim fechada,
sem a palavra que corta.

Nenhum suor te escorre,
nenhum pensamento te assola,
nenhuma emoção te ocorre .
Estranha a tua pele fria...

teu semblante nada atônito
e ainda muito mais estranho,
a escandalosa delícia
de teu suicídio platônico.
ACONTECE QUE A MENTE MENTE.
PATRÍCIA EVANS

A volta é mero ato falho
(A mente, dá seus maus passos)
Parti a vida em retalhos
parti o inferno em quatro
parti Deus em mil pedaços
Meus pés estão descalços
meus cem nomes são falsos
meus ideais são palhaços
Deus entretanto permanece
em cada centímetro quebrado
Não estou de volta, acontece;
nunca consegui partir de fato.
OBJETO DE AMAR
ADÉLIA PRADO

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.